31 de agosto de 2009
Desde o princípio deste projeto um dos nortes de nossas discussões e objetivos é fazer de nossas videointervenções uma forma de exercício de cidadania. Utilizar o espaço público como suporte para diálogos possíveis ( grupo poro, bloco do peixoto, tico tico serra copo) que em certa medida acontecem diariamente, mas que por inúmeras razões passam despercebidos ou ainda, não são considerados como uma proposta de interação. Assumir assim o espaço público não apenas como local de passagem, mas também de permanência.
Nossa proposta é de transposições, colagens, sobreposições e misturas de assuntos urbanos, na própria urbe. Questionar nosso habitat, para entendê-lo um pouco mais, para trocar idéias, ouvir vozes, misturar ruídos.
No dia 31/08 estivemos no bairro Planalto, zona norte de BH. A ideia inicial era transportar imagens de uma casa em demolição filmada alguns dias antes no bairro Itapoã (mf#03) e projetá-las nos muros de uma construção do que algum dia já foi uma loja. Da loja, efetivamente, resta uma fina casca, muros e escada, que hoje em dia abrigam uma extensa vegetação em seu interior. Discussão da memória, construção da memória e invenção de outras mais. O que são esses infinitos espaços demolidos ou que estão em processo de auto-demolição, o vazio criado pelo homem em contraposição à transformação criada pelo tempo. A vida no concreto.
Nossas interações com as pessoas da cidade se dão de várias formas, por inúmeros caminhos. Desde a criança que literalmente nada em uma panela que cozinha brócolis, até o não-diálogo, de pessoas que recebem a luz frontalmente e seu caminhar não se altera por nem um milímetro.
E neste dia fomos surpreendidos com mais uma nova possibilidade de diálogo – ou pelo menos uma resposta, um confronto ao que propomos. Nossas intervenções passam geralmente por duas linhas, que acredito serem de igual importância estrutural para o projeto: a ação planejada e o improviso. Portanto, ao mesmo tempo em que projetávamos a demolição na casca-de-loja, o espaço em que estávamos e as pessoas que por lá passavam não eram deixadas de lado. Assim, a projeção não assume o conforto do planejamento e se renova e cria novas conversas com bases no instante em que acontece. Ou seja, projetamos em outros muros, em outras superfícies presentes no espaço que ocupávamos naquele momento.
Estávamos neste processo havia aproximadamente 30 minutos quando fomos surpreendidos por um morador daquela rua, em um prédio localizado exatamente ao lado da (des)construção. Ao ver o que acontecia, este jovem sem qualquer abertura para diálogo direto com nosso grupo, tratou de chamar uma viatura de polícia, alegando uma pretensa contravenção que estava testemunhando na porta de sua casa. Durante todo esse processo, em nenhum momento, ele saiu na rua, ficando atrás das grades de seu prédio.
Tudo isso acontecia na Avenida Portugal, a 200 metros do Batalhão de Polícia Militar da região. Em três minutos, os policiais chegaram, momento em que o garoto finalmente saiu na rua e chegou perto para explicar a situação. A primeira pergunta dos policiais, aliás a mais lógica, foi se o menino tinha tentado estabelecer algum tipo de conversa com nosso grupo. Neste momento, o garoto, estudante de publicidade, inventou que havíamos nos negado a conversar e classificou para os policiais nossas contravenções: invasão de espaço privado, crime contra os direitos autorais (?) e violação ao seu direito de imagem. Completamente estarrecidos com o garoto, os policiais não entenderam o que ele alegava, e a partir de então mantivemos uma conversa de aproximadamente 40 minutos.
Resumindo: além de todas as contravenções que o garoto tinha elencado, classificou nosso trabalho como anti-cidadão, como imposição de uma pseudo-arte sem qualidade, que abusava dos cidadãos honestos que chegavam em casa tarde da noite, depois de um dia exaustivo de estudos. Falou ainda que isso era um absurdo, que se estivéssemos em países como Argentina (outra referência aqui), França ou Estados Unidos, isso não aconteceria... Os policiais, durante toda a conversa ressaltaram que o ponto fundamental da segurança e do exercício de cidadania é a conversa, e, devido a tantos crimes e o número elevado da população em relação ao contingente militar, não era possível que a Polícia Militar mediasse conversas desse tipo a todo momento, em toda a cidade. Falaram ainda que não viam ali nenhuma espécie de crime ou contravenção e ressaltaram que uma possibilidade que viam para o menino era estudar bastante a Constituição e Legislação de nosso país, mas que infelizmente, viver em cima de leis, sem estabelecer contato direto com a sociedade era tremendamente chato e inócuo. Nós, por fim, alegamos e continuamos afirmando que nosso intuito é a conversa, é a troca. Sair do privado e tomar o público como ponte para interações. No fim da noite, exaustos, mas bastante excitados, terminamos nossa projeção, e ganhamos mais umas tantas indagações sobre todo esse processo que estamos vivendo.
Termino o relato com alguns conceitos, encontrados no Aurélio, que nos servem como ponto de partida para alongar essa conversa:
cidadão: habitante da cidade
público_1: do, ou relativo, ou pertencente ou destinado ao povo, à coletividade;
público_2: que se realiza em presença de testemunhas, não secreto.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
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