domingo, 25 de outubro de 2009

mf#10 – Santo Antônio. Perpendicular.

24 de setembro de 2009.

Projeção Especial. Com hora marcada, convite e tudo mais. Foi uma participação no movimento da Perpendicular – Ações Para Apartamento, organizado para compor com a abertura de uma exposição na galeria da Copasa. O apartamento era em frente à rua Mar de Espanha, da Copasa, e foi ocupado por intervenções artísticas diversas, performances, em sua maioria. A exposição na Copasa era de Clarice Lacerda, Vicente Pessoa e Pedro Veneroso, e a própria Clarice, junto com Wagner Rossi, dono do apartamento, e outros amigos, propuseram a ação perpendicular. Parece que na galeria não foi permitido que eles fizessem qualquer tipo de performance, corporal, de vídeo, ou o que fosse…

O MuroseFundos rolou na rua, projetando nos prédios, nos ônibus que subiam, num portão de garagem, na esquina. Foi muito legal, o lugar era dos mais escuros em que já estivemos e a imagem ficou grandona, com cores vivas. Foi interessante ter um público, que foi uma aglomeração até considerável de pessoas. Levamos imagens de duração longa: a movimentação de pessoas dentro de um ônibus durante um trajeto bairro-centro, um cara consertando um guarda-chuva, homens jogando damas. Vale a pena ver essas fotos (todas valem!), que ficaram especialmente lindas! Viva!

Get the flash player here: http://www.adobe.com/flashplayer



Mf# 09 – um prado (ou sobre o cheio e o vazio)

16 de setembro de 2009.

Eu me lembro sem ter conhecido de um Prado das primeiras décadas do século passado, de um certo amanuense Belmiro, que bebia chope na avenida arborizada do parque municipal e voltava de bonde pro seu bairro, onde morava com suas duas tias velhas. O lugar era tranqüilo, apesar de a rua platina já ser importante para a capital recém nascida.

Memórias inventadas são boas pra gente pensar sobre a invenção de uma ciadade.

Quase um século depois das andanças de Belmiro, o MuroseFundos decidiu fazer uma intervenção neste bairro, tão singular, que não sei se já foi exclusivamente residencial, mas que pelo menos em minhas imaginações longínquas era bem menos comercial e tinha um trânsito de pessoas e veículos bem menos intenso na maré do dia-a-dia.

a considerar:

- Prado é um ponto importante da cidade, micro-centro da região oeste, que dá acesso ao norte e ao sul, Avenida Amazonas, Via-expressa, Contorno e tantas outras vias fundamentais de costura e entrelaçamento da cidade.

- hoje, com tantas lojas e confecções de roupa, o bairro é quase uma extensão do Barro Preto, talvez pretensamente mais elegante.

Mas no meio desses trânsitos todos, tem um bairro cheio de casas, com muitas famílias formadas e criadas ali. Pra mim, é no mínimo curioso andar por aquelas ruas de paralelepípedos, cheias de casas e me deparar em esquinas com vitrinas espelhadas e manequins vestindo roupas da moda, ou grandes cartazes e grandes nomes de marcas, modernamente colados nestas casas. Mas no fim das contas isso talvez tenha a ver com a invenção de uma cidade, as novas camadas coladas ao longo dos anos. Os bairros, seus significados, re-significados, apropriações e desapropriações...

Estou me alongando mas o que eu quero falar aqui é sobre o cheio e o vazio. Essas ruas todas do Prado são intensamente ocupadas durante o dia. Pessoas que transitam de lá pra cá. Do norte pro centro, do sul pro nordeste, de bh pra cidades adjacentes, diariamente, fora o compra-e-vende que faz a região ser conhecida como um pólo comercial.

Com todo esse contexto na cabeça nos propomos a vivenciar o bairro de uma outra forma, quando as lojas já fecharam, as portas e os carros já voltaram à suas casas. E vivenciar o Prado vazio é um paradoxo bem interessante. Na rua quase não se vê pessoas (apenas nos bares – condição inerente à Belo Horizonte). Ruas desertas momentaneamente iluminadas por poucos carros.

E é fantasmagórico deparar com esses manequins, estáticos nessas salas de vidro, no escuro. Escolhemos então um cruzamento com três ou quatro lojas e por ali decidimos projetar imagens de um norte distante: uma fila grande de pessoas em uma loteria, um pintor transformando um muro amarelo em rosa, um carroceiro com seu burro, lojas e comércios.

Foi uma experiência única. Nosso diálogo com os moradores foi esparso. Carros que reduziram a marcha para entender o que fazíamos, algumas janelas de prédios, com curiosos. Foram, no fim das contas, trocas singelas com essas pessoas. Mas que para nós funcionou como um momento intenso de imersão na cidade. O cheio e o vazio. Os movimentos respiratórios das ruas. O calor do dia e o frio da noite. O movimento das marés urbanas.

mf #06/07/08 – Savassi

10 de setembro de 2009.

Parando para pensar só agora, foi a primeira vez que fizemos projeções numa região que não fosse prioritariamente residencial. Ficamos ao lado do Rei do Pastel, depois sob a marquise da nova loja do Ponto Frio e em seguida lá na Praça mesmo, ao lado do Roberto Drummond.


Fiquei pensando…. A Praça da Savassi é uma praça segmentada, cortada pelas duas avenidas, Getúlio Vargas e Cristóvão Colombo….
Na verdade, são quatro esquinas com passeios largos. Passeios que se estendem até algumas ruas, quarteirões a dentro. A Praça da Savassi é um miolinho de ruas, tudo interligado. Uma área com um clima muito característico, com lojas, livrarias, cafés, botecos. Salas de escritório também. É um espaço compartilhado. Seria a Praça 7 da Zona Sul? Lugar de burgueses? Talvez, mas acho mais interessante se pensarmos o sentido de burguês como o que é próprio da cidade… acho que isso tem ver com a Savassi, que na minha opinião é um espaço público importante, de permanência, de ocupação…. Bem próprio de uma praça mesmo. É um lugar de identificação para mineiro, as ruas com os nomes de Inconfidentes, Claudio Manoel, Tomaz Gonzaga. E na sequência das ruas com nomes de estados, própria de Belo Horizonte, a Savassi está no Nordeste: Paraíba, Pernambuco, Maranhão, Piauí… e daí? Seilá, relação estranha de se fazer.

Nossas imagens ficaram muito legais ali. Foram gravações feitas no bairro Nova Pampulha, último bairro de BH na fronteira com Ribeirão das Neves. Rolou um contraste interessante, uma imagem de um açougue, com cartela do preço do acém, do patinho moído, fundida com a vitrine da Ponto Frio, nas tvs de plasma. Foi uma coincidência ótima, chamamos o Ponto Frio de frigorífico… ainda mais para essa filial, que é supostamente mais elegante, da Savassi.

E teve um momento muito bacana, com o dono de uma banca de revistas, na Getúlio Vargas. Ele perguntou se queríamos que apagasse a luz de dentro da banca para que a imagem ficasse mais nítida. Projetamos sobre as revistas e criamos uma colcha de retalhos vibrante, emaranhado de notícias.



mf#08_06 from Videodó on Vimeo.

cena de videointervenção realizada na Av. Getúlio Vargas, na Savassi, em Belo Horizonte, no dia 10 de setembro de 2009. +info: murosefundos.com

terça-feira, 29 de setembro de 2009

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

muro perpendicular



















Hoje o MuroseFundos participa da ação coletiva Perpendicular,
a acontecer no apartamento 01 do prédio número 15, da rua Antônio Dias, no Bairro Santo Antônio,
a partir das 19h. A Antônio Dias é uma rua perpendicular à rua Mar de Espanha, onde se localiza
a Galeria da Copasa.


PERPENDICULAR | ações para apartamento.

corpos perpendiculares são corpos concorrentes que se cruzam num ponto formando entre si ângulos rectos.


artistas participantes_


E. Mendes

Fernando Ferreira

Gabriela Carvalho

Marco Paulo Rolla

MuroseFundos

Paulo Nazareth

Raquel Versieux

Regina Ganz

Renata Lacerda

Wagner Rossi


Realização | Wagner Rossi

Colaboração | Clarice Lacerda _ Daniella de Moura _

Marco Antonio Mota _ Camila Michelini _ Raquel Versieux

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

mf#05 – alô, polícia!

31 de agosto de 2009

Desde o princípio deste projeto um dos nortes de nossas discussões e objetivos é fazer de nossas videointervenções uma forma de exercício de cidadania. Utilizar o espaço público como suporte para diálogos possíveis ( grupo poro, bloco do peixoto, tico tico serra copo) que em certa medida acontecem diariamente, mas que por inúmeras razões passam despercebidos ou ainda, não são considerados como uma proposta de interação. Assumir assim o espaço público não apenas como local de passagem, mas também de permanência.

Nossa proposta é de transposições, colagens, sobreposições e misturas de assuntos urbanos, na própria urbe. Questionar nosso habitat, para entendê-lo um pouco mais, para trocar idéias, ouvir vozes, misturar ruídos.

No dia 31/08 estivemos no bairro Planalto, zona norte de BH. A ideia inicial era transportar imagens de uma casa em demolição filmada alguns dias antes no bairro Itapoã (mf#03) e projetá-las nos muros de uma construção do que algum dia já foi uma loja. Da loja, efetivamente, resta uma fina casca, muros e escada, que hoje em dia abrigam uma extensa vegetação em seu interior. Discussão da memória, construção da memória e invenção de outras mais. O que são esses infinitos espaços demolidos ou que estão em processo de auto-demolição, o vazio criado pelo homem em contraposição à transformação criada pelo tempo. A vida no concreto.

Nossas interações com as pessoas da cidade se dão de várias formas, por inúmeros caminhos. Desde a criança que literalmente nada em uma panela que cozinha brócolis, até o não-diálogo, de pessoas que recebem a luz frontalmente e seu caminhar não se altera por nem um milímetro.

E neste dia fomos surpreendidos com mais uma nova possibilidade de diálogo – ou pelo menos uma resposta, um confronto ao que propomos. Nossas intervenções passam geralmente por duas linhas, que acredito serem de igual importância estrutural para o projeto: a ação planejada e o improviso. Portanto, ao mesmo tempo em que projetávamos a demolição na casca-de-loja, o espaço em que estávamos e as pessoas que por lá passavam não eram deixadas de lado. Assim, a projeção não assume o conforto do planejamento e se renova e cria novas conversas com bases no instante em que acontece. Ou seja, projetamos em outros muros, em outras superfícies presentes no espaço que ocupávamos naquele momento.

Estávamos neste processo havia aproximadamente 30 minutos quando fomos surpreendidos por um morador daquela rua, em um prédio localizado exatamente ao lado da (des)construção. Ao ver o que acontecia, este jovem sem qualquer abertura para diálogo direto com nosso grupo, tratou de chamar uma viatura de polícia, alegando uma pretensa contravenção que estava testemunhando na porta de sua casa. Durante todo esse processo, em nenhum momento, ele saiu na rua, ficando atrás das grades de seu prédio.

Tudo isso acontecia na Avenida Portugal, a 200 metros do Batalhão de Polícia Militar da região. Em três minutos, os policiais chegaram, momento em que o garoto finalmente saiu na rua e chegou perto para explicar a situação. A primeira pergunta dos policiais, aliás a mais lógica, foi se o menino tinha tentado estabelecer algum tipo de conversa com nosso grupo. Neste momento, o garoto, estudante de publicidade, inventou que havíamos nos negado a conversar e classificou para os policiais nossas contravenções: invasão de espaço privado, crime contra os direitos autorais (?) e violação ao seu direito de imagem. Completamente estarrecidos com o garoto, os policiais não entenderam o que ele alegava, e a partir de então mantivemos uma conversa de aproximadamente 40 minutos.

Resumindo: além de todas as contravenções que o garoto tinha elencado, classificou nosso trabalho como anti-cidadão, como imposição de uma pseudo-arte sem qualidade, que abusava dos cidadãos honestos que chegavam em casa tarde da noite, depois de um dia exaustivo de estudos. Falou ainda que isso era um absurdo, que se estivéssemos em países como Argentina (outra referência aqui), França ou Estados Unidos, isso não aconteceria... Os policiais, durante toda a conversa ressaltaram que o ponto fundamental da segurança e do exercício de cidadania é a conversa, e, devido a tantos crimes e o número elevado da população em relação ao contingente militar, não era possível que a Polícia Militar mediasse conversas desse tipo a todo momento, em toda a cidade. Falaram ainda que não viam ali nenhuma espécie de crime ou contravenção e ressaltaram que uma possibilidade que viam para o menino era estudar bastante a Constituição e Legislação de nosso país, mas que infelizmente, viver em cima de leis, sem estabelecer contato direto com a sociedade era tremendamente chato e inócuo. Nós, por fim, alegamos e continuamos afirmando que nosso intuito é a conversa, é a troca. Sair do privado e tomar o público como ponte para interações. No fim da noite, exaustos, mas bastante excitados, terminamos nossa projeção, e ganhamos mais umas tantas indagações sobre todo esse processo que estamos vivendo.

Termino o relato com alguns conceitos, encontrados no Aurélio, que nos servem como ponto de partida para alongar essa conversa:


cidadão: habitante da cidade

público_1: do, ou relativo, ou pertencente ou destinado ao povo, à coletividade;

público_2: que se realiza em presença de testemunhas, não secreto.

indagações passantes

onde está a beira.

máscara ou superfície.

colado ou emprestado.

quando o fundo afunda.

ocupação ou locação.

conversa ou grito.

paisagem - arquitetura.

transporte.

qual o peso do instante.

quanto dura o momento.

privado ou público.

qual é o limite - nosso e do outro.

quando o fundo é raso.

quando o raso é fundo.


fazer a noite clara.